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MÍSSIL


Literatura infanto-juvenil para todas as idades.
Oswaldo Cruz e Guilherme Cruz Rossi (21/06/96) . "Missil":Autoria de Oswaldo Cruz e Guilherme Cruz Rossi, cujo texto será aqui registrado , só o primeiro capítulo . Download do livro inteiro e corretamente formatado clique aqui: missil.zip ( 122kb )

Este livro pretende despertar o interesse de alguma Editora .... ( Leia você vai gostar ).



CAPÍTULO I

Era a primeira vez que Guilherme caminhava pela rua sem a companhia de alguém. E já completara doze anos. Seus pais sempre cuidaram para que os três filhos permanecessem juntos ao saírem de casa. O senhor Antônio (Toninho) e dona Miriam formavam um casal muito unido e a qualquer lugar que fossem, levavam os filhos: Leonardo (16), Guilherme (12) e Bernardo (10). Só não acompanhavam as crianças no regresso da escola por ser um momento em que ambos estavam trabalhando, mas confiavam no bom comportamento dos garotos. Naquele dia, porém, devido a um trabalho de Química, Guilherme precisou permanecer no Colégio por mais duas horas e os irmãos não quiseram esperar tanto. Eis porquê estava regressando a caminhar sozinho pela Rua Cardeal Arcoverde. Ainda meditando sobre as experiências feitas sob a orientação do professor, ele andava lentamente, procurando familiarizar-se um pouco mais com as coisas da Tabela Periódica e com os valores e propriedades dos átomos. De repente, um acontecimento roubou totalmente sua atenção: Um homem, irado, chicoteava seu cavalo que não queria mais saber de puxar a carroça. Xingava, dava pontapés no animal, puxava-o pelas rédeas, voltava a chicotear e... nada ! O bicho empacara mesmo. A cidade de São Paulo, uma das maiores do mundo, modernizara-se muito. Já não se viam carroças trafegando pelas ruas, a não ser de quando em quando. O menino encostou-se a um portão e ficou a observar a cena. Formara-se já, um terrível congestionamento no trânsito. Buzinas, gritos e aglomeração de pessoas que gesticulavam e revoltavam-se contra o espancamento sofrido pelo animal. E o homem batia, chutava, blasfemava e puxava-o sem sucesso. Não satisfeito, pegou um pedaço de pau que estava a um canto da calçada e iniciou um devastador espancamento. A cada paulada o bicho relinchava e empinava-se. Uma espuma esverdeada começara a escorrer-lhe pelo canto da boca. Era muito magro (esquelético mesmo). Notava-se claramente que era bem subnutrido. O carroceiro, com raiva, berrava : - Vamo, seu filho d’uma égua ! - mais uma paulada - Puxa logo essa carroça, ou eu te mato de pancada agora mesmo ! - outro pontapé. Em uma das empinadas, o conteúdo da carroça esparramou-se todo pelo meio da rua. Eram caixotes. Alguns abriram-se e... foi tomate pra todo lado ! Então, o trânsito complicou-se de vez ! Moleques e senhoras maltrapilhos passaram a encher sacolas e aventais com o produto. Isso acabou de enlouquecer aquele verdugo. Alguns homens ofereceram-se para ajudá-lo a retirar a carroça do meio da rua, mas para isso foi necessário desatrelar o cavalo que, em seguida, foi amarrado a um poste. A carroça foi colocada sobre a calçada e então, lentamente, automóveis e ônibus começaram a passar, esmagando os tomates que ainda por ali restavam. Desolado, o espancador olhava para aquela cena: Caixotes quebrados e toda a sua mercadoria roubada ou esmagada. Pôs o rosto entre as duas mãos, vagarosamente sentou-se na sarjeta e, por uns momentos, caiu em prantos. Todos olhavam consternados... mas ninguém percebia que o pobre cavalo, não conseguindo mais parar em pé, deitara-se na calçada de forma muito descômoda e com perigo de enforcamento, pois as rédeas amarradas ao poste, apertaram-lhe o pescoço e não desceram acompanhando o corpo, cujo peso arrochava mais e mais a laçada que se formara. Por entre os carros, em velocidade, Guilherme atravessou correndo a rua e desamarrou as rédeas ajudando, com muito esforço, o bicho a ficar numa posição mais confortável. Acariciou-o e abraçou-o demoradamente. O pobre animal que, até então estivera de olhos fechados, levantou as pálpebras e fitou agradecido ao menino. Naquele momento, o carroceiro que parara de chorar, voltou a olhar para o cavalo. Dos seus olhos que pareciam emitir chispas de fogo, partiu u’a mensagem assassina. Pôs-se de pé, pegou o pau e partiu furiosamente em direção ao bicho, com evidente intenção de acabar com ele. Guilherme levantou-se, colocou-se entre os dois e chorando, implorou : - Não, moço ! Por favor, deixe-o em paz; ele não tem culpa de nada ! - Sai da frente, garoto ! Eu quero matá ele ! Sai pra lá - deu um empurrão no menino, que caiu sentado na calçada. Então, alguns rapazes seguraram firmemente o homem e arrancaram-lhe o pau da mão. - O senhor não vai fazer mais nada. – disse um deles em tom ameaçador. - Mas... vocês não viram o que aconteceu ? - volveu o carroceiro. - O que aconteceu já não importa. Deixe o bicho descansar tranqüilo. - É, né ?... não foi o senhor quem perdeu toda a sua mercadoria e que ficou sem nenhum tostão... Com que é que a minha família vai comer na próxima semana ? - Sim. Mas judiando, espancando ou matando o seu cavalo, o senhor não terá o dinheiro ou os tomates de volta. Acalme-se de uma vez e esfrie a cabaça. Depois, raciocinando melhor, saberá achar uma solução para o seu problema. Ainda muito revoltado, o homem deu uma última olhada para o cavalo. Guilherme tinha voltado a acariciá-lo. - Você gosta muito dele, não é mesmo ? - falou para o menino - Pois fique com essa porcaria. Leve-o com você; trate dele; dê comida... aliás, é só o que ele sabe fazer muito bem: comer. Virou as costas e foi embora, entrando na primeira esquina. Simplesmente desapareceu. Guilherme continuou a alisar o pêlo do bicho e este voltou-lhe o olhar como que agradecido. Por incrível que pareça, rolaram duas lágrimas daqueles imensos olhos... Já começava a anoitecer quando o garoto percebeu que ali tinham ficado somente ele e o cavalo. O povo havia se dispersado. Só uma ou outra pessoa parava para olhar por alguns momentos, mas logo seguia seu caminho. Raciocinava bastante procurando encontrar uma solução para o problema. Falou para o animal: - Agora, meu cavalinho, você precisa levantar-se para que eu o leve a algum lugar onde possa cuidar desses ferimentos... vamos, fique em pé ! - e com sua pouca força procurou ajudá-lo. Num gesto carinhoso o cavalo esfregou o focinho no rosto dele. Relinchou e, ofegante procurou obedecer, indo aos poucos pondo-se de pé. Começaram a caminhar muito lentamente em direção à casa do menino. Por várias vezes, as pernas do bicho bambeavam e ele caía, ora de joelhos, ora de corpo inteiro. Mas o garoto esperava pacientemente que descansasse um pouco; depois falava-lhe ao ouvido com bastante ternura: - Vamos ! Você consegue... – e ajudava-o a levantar-se - Precisamos ir. Meus pais já devem estar em casa e, certamente preocupadíssimos... força... levante-se, por favor... Gastaram mais de vinte minutos para percorrer apenas cinco quarteirões ! E nesse percurso o menino ia ficando cada vez mais preocupado. Pensava : “ – Que faço agora ?... Para onde poderia levá-lo ?... Moramos em apartamento de sétimo andar... Para lá não poderemos ir...” Quando passavam em frente à farmácia, teve u’a modesta idéia: Levantou uma das orelhas do cavalo e disse suavemente: - Fique aqui, cavalinho. E espere um pouco. Vou aí dentro para conseguir os remédios. Novamente, aquele focinho macio e túrgido afagou-lhe o rosto. O animal baixou o traseiro e - como fazem os cães - literalmente sentou-se ali ao lado da porta da farmácia. Encarou o menino com uma expressão que não deixava dúvidas. Era como se dissesse - Vá... eu espero. Resolutamente Guilherme entrou na farmácia e, fazendo o possível para sorrir, dirigiu-se ao farmacêutico: - Olá, Cardoso, como vai o senhor ? - Estou bem, Gui - respondeu cordialmente o homem - O que vai querer ? - Posso falar-lhe em particular ? - Claro ! Venha comigo - e ambos entraram para a saleta das injeções - diga, o que quer ? Procurando resumir o mais possível, Guilherme narrou-lhe o acontecido. Além dos medicamentos, queria um conselho, uma orientação de como agir naquela circunstância. O senhor Cardoso deu-lhe Iodo, um pacote de algodão e esparadrapo dos grandes. Por um breve momento concentrou-se, buscando evocar algum conselho que pudesse dar ao menino. Depois, disse calmamente: - Ligue para o seu avô. Talvez ele tenha alguma idéia que possa a ajudá-lo. - É verdade ! - respondeu eufórico o menino - mesmo porque meus pais não iriam saber o que fazer além de censurar-me muito. Meu avô sempre teve enorme paciência para conosco. – raciocinou um pouco e decidiu-se. – Posso usar o telefone ? - Lógico. - Foi até a caixa, apanhou uma ficha e entregou-a a Guilherme. Ao virarem-se, tiveram a maior surpresa do mundo: Cansado de esperar, o cavalo tinha entrado no estabelecimento e, disfarçadamente, olhava as pequenas vitrines dos balcões, como se estivesse muito interessado nas coisas ali expostas ! Fingia nem conhecer o menino ! Este deu-lhe uma bronca : - Eu não lhe disse para esperar lá fora ? ... Volte para lá imediatamente ! O bicho olhou tristemente para ele e foi saindo devagar, indo de novo sentar-se ao lado da porta. O farmacêutico sorriu . Foi discado o número... após dois ou três toques, atenderam : - ... - Vovô, é o senhor ? - ... - É o Gui... Preciso de sua ajuda. Pode vir até a farmácia... agora ? - ... - Não senhor. Nada aconteceu em casa... é comigo. Se puder, venha depressa que eu lhe contarei tudo... mas fique sossegado pois estamos todos bem. - ... - Então o senhor virá agora mesmo ? - ... - Não. Não sairei daqui enquanto não chegar. - ... - Cinco minutos ? Ótimo !... Obrigado, vovô. – e desligou. Voltou para junto do cavalo que continuava sentadinho na calçada. Ali já estavam de dez a quinze pessoas, observando e admirando a pose do bicho. De fato, cinco minutos depois chegou o senhor Oswaldo (o avô). Foi pedindo licença a toda aquela gente que assistia ao tratamento que o farmacêutico e o menino faziam nos ferimentos do animal. Ao ver que o avô havia chegado, o garoto deixou que o farmacêutico prosseguisse sozinho nos curativos e foi abraçá-lo. Rapidamente contou todo o ocorrido e expôs o problema que surgiu quando passou a ser o proprietário do cavalo. - Onde irei deixá-lo até que se cure ?... e papai, irá entender e ser compreensivo ?... como deverei agir, vovô ? - Acho que o melhor seria encaminhá-lo à Sociedade Protetora dos Animais - sugeriu ao neto o senhor Oswaldo. - Não. – disse secamente - desculpe vovô... mas... ele gosta tanto de mim... não seria justo fazer isso... iria nos separar e... ele iria sofrer. - “E você também” - deduziu o homem. Parecendo ter ouvido o pensamento do avô, ele confirmou : - É verdade... eu também. - O melhor será deixarmos a decisão para amanhã. Adiando, talvez tenhamos uma idéia que resolva o problema. - Mas como ? O senhor também mora em apartamento... como poderíamos adiar ? - Deixe comigo. Naquele momento, o carro dos pais de Guilherme encostou no meio-fio. Toninho e dona Miriam viram que o senhor Oswaldo e o neto ali estavam no meio daquele rolo. Desceram imediatamente e, pedindo licença aos presentes, foram se aproximando. - O que houve ? - perguntou o pai, enquanto dona Miriam abraçava o filho que mostrava-se muito emocionado. - Há mais um membro na família - procurou brincar o avô, apontando para o cavalo que já se havia posto de pé. - Como assim ? Rapidamente contaram como o bicho passara a pertencer ao garoto. A aparência debilitada, a magreza e todos aqueles esparadrapos, não contribuíram em nada para causar qualquer entusiasmo ao casal. Mesmo assim, o coração falando mais alto, dona Miriam aproximou-se e afagou o focinho do cavalo. dizendo: - É lindo ! - o bicho pareceu sorrir. - Lindo, nada ! - disse Toninho - é um monte de ossos ! - a expressão do bicho voltou a ser triste. E dirigindo-se ao filho, censurou : - Você, heim ? Sempre aprontando das suas !... Então o cavalo ficou muito bravo, começando a relinchar seguidamente e a olhar feio em direção ao senhor Antônio. Foi preciso que Gui interviesse, falando-lhe docemente: - Calma, menino. Ele gosta de você. Só que não quer dar o braço a torcer... Fique bonzinho... Vamos, encoste a cabeça aqui nesta parede e descanse. Ele obedeceu mas, ainda com o rabo do olho, continuou a evocar ameaçadoramente o pai dos meninos. – Afinal, aquele homem tinha falado meio rudemente com o seu novo dono, e isso ele não iria tolerar ! Mas depois foi se acalmando... ficou bem quietinho, fechou os olhos e... adormeceu ali mesmo ! O povo aplaudiu. Toninho ficou abismado com o domínio que seu filho exercia sobre o animal ! - É. Parece que ele gosta mesmo de você, heim ? - E eu dele, papai. Não sei como faremos mas quero muito que fique conosco. - Você está louco ? Onde é que iremos colocá-lo ? - Espere,Toninho. Vamos raciocinar um pouco, talvez assim encontremos alguma solução. - disse a mãe. - Deixem comigo. Eu resolverei isso. – interveio o avô - Vocês vão para sua casa e eu cuido do animal. - Mas, como ? - Darei um jeito. - Podemos ir para casa, então ? - Lógico ! ... eu me viro. Ainda em dúvida, o casal e o filho iam dirigindo-se para o carro quando o cavalo, fazendo um terrível esforço, foi se pondo novamente de pé. Da janela do automóvel o menino acenou-lhe. Ele, melancolicamente relinchou e ficou a olhar para o veículo que, logo adiante entrou na garagem do prédio onde a família morava. Então saiu meio a trote procurando a entrada do edifício. O senhor Oswaldo tentou segurá-lo, controlá-lo, mas não adiantou. O bicho entrou no prédio arrastando o avô do menino até o elevador. Já o porteiro da noite acorrera para ajudá-lo e... nada ! Ninguém segurava o animal ! Ele descobriu a porta da escadaria e com o focinho empurrou-a, começando a subir os degraus. Os moradores do edifício, vindos de seus apartamentos já iam aparecendo, querendo descobrir a causa daquele reboliço. Mal chegados à casa, Guilherme, Bernardo (o caçula) e Leonardo (o mais velho), além do senhor Antônio e dona Miriam, também haviam descido, engrossando o grupo ali presente. O pai estava desolado com aquele transtorno e dizia : - É. Não vai ser possível deixar de enviá-lo à Protetora dos Animais... E já Leonardo e Bernardo afagavam e acariciavam o bicho, admirados com a ternura que ele dedicava a Guilherme ! O porteiro falou : - Por favor, tirem o animal daqui... isso irá complicar a minha vida ! - Deixem que o Gui cuide disso - sugeriu a mãe. O menino começou a falar carinhosamente com o cavalo: - Seja bonzinho... vamos lá para a rua... Ele relinchou e balançou a cabeça como em uma negativa. - Eu fico com você - continuou o garoto – Iremos você, o vovô e eu. Uma espécie de sorriso estampou-se na cara do cavalo, que começou a andar vagarosamente em direção à saída, sempre olhando e conferindo se Gui também vinha vindo. Ao chegarem novamente à calçada, o pai do garoto chamou o sogro para um lado e demonstrou toda a sua preocupação com o caso. - Olhe aqui, meu sogro. Estamos tão atrapalhados com esta situação e o senhor ainda fica a dar esperanças ao Guilherme, de que poderíamos ficar com o cavalo... como é que pode estar tão tranqüilo assim ? - Precipitação não iria adiantar nada. Amanhã pensaremos melhor. - Mas, e hoje ?... que poderemos fazer ? - Não sei... ainda. Mas acho que conseguirei resolver tudo para que se passe esta noite sem que precisemos tomar uma atitude definitiva. - Como pretende proceder ? - Deixe que o Gui fique comigo... ele poderá ajudar-me. Em seguida eu o trarei de volta para que durma. - Não sei não... Por mim, chamaríamos a Protetora dos Animais, entregaríamos o bicho e tudo ficaria resolvido. - Toninho... será que você não percebe o quanto o menino está gostando dele ? Não se importa que o garoto sofra ?... E o bicho ? Viu como ele se sente seguro e feliz ao lado de Gui ?... Vamos pensar melhor e depois decidiremos. - E o senhor ? Não acha que está perdendo muito do seu tempo com esta história ? - Deixe tudo por minha conta. Mas vou precisar do Guilherme. - Por mim tudo bem, desde que a Miriam também esteja de acordo. Ao voltarem para o grupo, encontraram dona Miriam a conversar e a brincar com o cavalo, que parecia muito orgulhoso com a nova família; principalmente porque o Gui não saía de perto dele. Toninho olhou significativamente para o sogro e balançou a cabeça de um lado para o outro. - É. Parece que já temos nossa resposta. Pode levar o Gui e tirar esse pangaré daqui da frente do prédio... fazer o que, né ? Guilherme e o avô despediram-se de todos e saíram de mãos dadas, em direção à residência do velho. Depois de uns dez passos, o menino deu um assobio e imediatamente as orelhas do animal puseram-se de pé. Então ele começou a trotar seguindo os dois. A impressão que se tinha era de que ensaiava alguns passos de dança... estava muito feliz ! A mãe do garoto ainda gritou: - Cuidem bem dele !... é tão lindo ! Novamente o povo aplaudiu e foi se dispersando. Só quando os três viraram a esquina da Rua Pedroso de Morais é que o casal e os outros dois filhos entraram no prédio.

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