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" Acabemos com esse Carnaval "

Autor : Oswaldo Cruz

Nosso Carnaval sempre contrariou os interesses daqueles que comandam o jogo em Lãs Vegas. Além de roubar público (turistas que habitualmente freqüentam os EE.UU., Disneylândia por exemplo), sempre foi uma pedra no caminho daquela gente. Por isso, por volta de 1958, iniciou-se uma terrível campanha que tinha como objetivo, minar, boicotar e até exterminar se possível, com essa nossa grande festa popular. Foi mais ou menos assim: Até então, não tínhamos uma Indústria de toca-discos de classe; tínhamos sim, algumas pequenas fábricas dos chamados “Pick-up”, que arranhavam os discos, tirando-nos o prazer de ouvirmos uma reprodução perfeita. E, assim mesmo, eram poucas as famílias que possuíam tais aparelhos. Havia, em todo o Brasil, pouco mais de cem mil deles. Então, os artistas que conseguissem alcançar uma vendagem por volta de oitenta mil exemplares de sua gravação, automaticamente iriam para o topo da evidência, brilhando o suficiente para, com pouquíssimos shows, viverem mais ou menos confortavelmente. Mas, dado o tempo romântico que era, conseguiam ser felizes... milionários, jamais! Os americanos fundaram uma fábrica de toca-discos com grande qualidade e tomaram conta desse mercado. Quando atingiram a vendagem aproximada de um milhão deles, os artistas brasileiros já podiam pensar em uma tiragem acima dos quinhentos mil exemplares de suas músicas; o nosso mercado de discos, assim, passou a interessar a eles. O plano começou a tomar vulto: Financiaram a criação da maior rede de rádio e televisão da América Latina, a Rede Globo, dando ao proprietário desta, algo em torno de duzentos e oitenta milhões de dólares, só pedindo em troca, que executassem muito todas as músicas que deles viessem. Foi a conhecida invasão de músicas daquele país, em detrimento das dos nossos artistas-raízes. Até hoje, surgem infalivelmente em nossas novelas com temas quase sempre regionais, fundos musicais compostos e interpretados por artistas americanos. As músicas muito parecidas com as deles, eram também muito executadas, com isso surgindo aquilo que foi chamado de Jovem-Guarda. Só os artistas com aquelas características podiam vencer. O plano para acabar com o nosso Carnaval foi se afirmando quando eles compraram todas as nossas pequenas gravadoras: “Todamérica”, “Sinter”, etc. e pararam de gravar músicas novas de Carnaval Os artistas estranharam muito, mas tiveram de conformar-se em não mais gravar para essa época. Eram, então, os anos 60. Depois disso, até hoje, quando o público vai a um baile carnavalesco, passa a noite inteira dançando “Mamãe eu quero”, “Alala ô”, “Me dá um dinheiro aí”, “Cabeleira do Zezé”, “Coração Corintiano”, etc... E vem então o comentário: -Antigamente, sim, é que se faziam músicas carnavalescas de verdade! Ou - Hoje, ninguém mais faz músicas como os compositores antigos. Ora, o público não tem culpa e nem toma conhecimento do que acontece no mundo das finanças, onde tudo se compra e onde se fazem empreendimentos aparentemente naturais, fazendo brilhar a uns escolhidos e ofuscando a outros. Para o público, os compositores e os cantores antigos é que eram os bons. Pois bem. Foram trançados pauzinhos e conseguiram acabar com o Carnaval de rua de São Paulo e do Rio de Janeiro, do que se aproveitaram os nordestinos, que não fugiram às suas raízes. Houve uma tentativa de reação por parte da política brasileira, fazendo valer uma lei que já existia por aqui, que obrigava as emissoras a tocar, pelo menos 70% de músicas brasileiras. Isso iria contundir o plano deles. Mas, como de costume, quem tem dinheiro sempre consegue o que quer. “Iriam tocar 70% de músicas brasileiras? Então vamos contratar artistas brasileiros”. Enviaram um grupo de pessoas ao Brasil, com a finalidade de escolher artistas para serem contratados por empresas americanas. Se esses artistas viessem a fazer sucesso, tais empresas também iriam ganhar muito dinheiro. Ora. Os americanos têm muitas cidades grandiosas como São Paulo e Rio de Janeiro e isso não os impressiona em nada. Preferem as belezas naturais da Bahia, além da humildade e comunicabilidade de seu povo. Por isso, o tal grupo, quando veio contratar artistas brasileiros, instalou-se na Bahia. E foi um tal de contratarem Bethânia, Gilberto Gil, Caetano, Chico Buarque, etc... E foi a vez de o nosso público comentar: - Na Bahia é que há cantores e compositores de verdade. Nós jamais chegaremos aos pés daquele povo. Aqueles artistas nordestinos então contratados, foram os que passaram a ser divulgados e a irem gravar nos States. De fato, são artistas maravilhosos... mas, por aqui também os há – só que deixaram de ser divulgados. Voltando aos que pretendiam acabar com o Carnaval do Rio de Janeiro e de São Paulo, agora, com essas novas condições, conseguiram resumir os carnavais Paulista e Carioca aos Sambódromos. Somente isso, não é Carnaval. A gente não vê mais um grupo passar desfilando de surpresa por qualquer rua à sua escolha; assim como não se encontra barraca alguma montada e com aparelhos de som para que o público dance e pule gratuitamente; não se vê os paulistas e cariocas sambando, pulando e cantando pelas ruas. Em suma, nos dois maiores centros do país já não há mais Carnaval gratuito. Só há Sambódromos, nos quais, quem paga assiste; e quem não paga fica na saudade! Realmente, sem músicas novas e sem locais para o povo dançar, o nosso carnaval acabou. Já os nordestinos não entraram nessa. Seus artistas, todos contratados por empresas americanas, promovem, apoiados pelas Prefeituras, seus Trios Elétricos, permitindo que seu povo festeje de graça pelas ruas, agora infestadas por turistas do mundo inteiro. É necessário que se acabe com esse estado de coisas, fazendo com que os Sambódromos deixem de ser a única opção. Portanto, senhores responsáveis pelas Prefeituras das duas cidades de maior evidência do Brasil, queiram investir um pouco mais, para que volte a existir o grande Carnaval de rua de antigamente. Senhores responsáveis pelas gravadoras, voltem a gravar músicas de Carnaval, mesmo que isso não lhes dê o retorno financeiro que desejam. Ao final, o próprio povo gastará um pouco mais de dinheiro e os turistas, fluindo em maior quantidade, movimentarão o fluxo financeiro do país e isso também lhes trará os lucros desejados. O que não pode é a gente conformar-se com a atual letargia.

* * FIM * *

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