Autor : Oswaldo Cruz
Nos tempos atuais, as coisas são muito diferentes do que eram a cinqüenta anos atrás. Era duro, sim, mas o povo acostumara-se com regime ditatorial e não pensava em rebelar-se, já que todos os que desejassem, tinham emprego e viviam relativamente felizes. Naquele tempo, mesmo trabalhando, aquele que possuísse geladeira, televisor, fogão a gás, chuveiro elétrico, bicicleta, etc... era considerado rico. Pouquíssimas pessoas possuíam casa ou apartamento próprios... essas eram consideradas muito ricas. Mas era um tempo romântico, quase sem crimes, roubos, assaltos, em que qualquer rapaz – ao atingir a maioridade – podia contar com um emprego e assim, mesmo pobre, ser independente e honesto. Qualquer rapaz, se quisesse, podia tranqüilamente pedir a namorada em casamento, pois estaria ganhando o suficiente para manter – apesar de pobre – um lar. Raramente, aquele que se casava, permitia que a esposa continuasse a trabalhar fora. Podiam ter esse orgulho.A maioria do povo tomava banho de bacia e fazia a comida em fogareiros rústicos a carvão (hábitos do tempo da Ditadura); pobre não tinha automóvel e não andava de táxi; por isso, moças e rapazes não eram muito exigentes. Pouquíssimos sentiam o gosto de ver televisão, tomar banho de chuveiro, às vezes almoçar ou jantar fora. Ir à praia? Só de dois em dois anos (e às vezes, mais). Agora, os pobres podem ter esses prazeres. Entretanto, os pobres de hoje são aquilo que, a cinqüenta anos, era chamado de “classe média” – e são pouquíssimos: digamos, uns dez por cento da população; Setenta e cinco por cento do nosso povo, vivem como miseráveis; uns cinco por cento é a nossa atual “classe média”; e somente uns dez por cento, são considerados ricos. Estes últimos, são ricaços que seguem um esquema de fartura sem limites. E como vivem as pessoas que compõem os setenta e cinco por cento da população? São velhinhos desamparados, homens e mulheres vivendo de forma precária, crianças desnutridas que têm o destino de conviver com o crime, pois os pais, vivendo em favelas e, por causa da bebida, quase sempre à beira da separação, têm de trabalhar muito para conseguir ganhar um salário-mínimo e, por isso, não têm tempo para cuidar dos muitos filhos. Estes, sem o acompanhamento de outros parentes, freqüentemente acabam cruzando com marginais, traficantes ou bandidos de várias tendências. Ninguém tem tempo para cuidar de velhos pais. Qualquer um consegue adquirir um aparelho usado de televisão. A TV apresenta muitas cenas de violência, com as quais os garotos vão convivendo, familiarizando-se e achando que é muito fácil roubar, matar, esfolar, estuprar... – bem mais fácil do que procurar emprego, pois sem cultura ou experiência, ouvem centenas de “nãos” até que finalmente desistem. Depois que atingem uma idade acima de doze anos, passam a receber convites e ensinamentos para assaltar, roubar, bater, judiar e matar suas vítimas, e assim, aprendem a conseguir dinheiro fácil. A seguir, são induzidos a cheirar pó, fumar maconha e, finalmente, traficar... Alguns são presos e vão morrer nas mãos de algum colega de prisão, ou cumprir sua pena em lugares podres e fétidos. Falemos agora daqueles que são pobres remediados e honestos, a classe média (cinco por cento da população). Como é que um rapaz pode julgar-se no direito de pedir u’a moça em casamento, ganhando (se tiver curso superior) uns oitocentos reais por mês? Quatrocentos irão com o aluguel de u’a moradia mais ou menos digna, se quiser evitar levar a esposa para a favela. Para não serem apanhados de surpresa, terão de filiar-se a um Plano de saúde (os mais mixos custam pelo menos duzentos reais para o casal); condução, roupas para os dois, dentista, calçado, remédios, etc... (com estas despesas vamos calcular ridiculamente, uns duzentos)... E a comida?... E o papel higiênico?... E o sabonete?... E a pasta de dentes?... O casal precisaria renunciar a dezenas de coisas essenciais. Digam: É possível? Comentei a história de um rapaz que estaria ganhando oitocentos reais por mês. E o que dizer daquela grande maioria que ganha entre os cento e oitenta e os seiscentos reais? Um pequeno comentário a mais: Quem ganha oitocentos, só recebe por volta de setecentos e cinqüenta, pois há os descontos. E o coitado que ganha o salário-mínimo (cento e oitenta reais) que, tendo descontados os encargos, chega a receber, na verdade, cerca de cento e sessenta. Por isso, os casais estão evitando compromissos sérios. Preferem juntar-se; combinam entre si, que ela também irá trabalhar para então, dividirem as despesas, mas jamais conseguem superar as dificuldades, passando a desentenderem-se, o que faz com que as uniões não sejam duradouras. Pergunto: Até quando os milionários irão fazer-se de “Migué”, pensando somente em seu progresso, ignorando totalmente aqueles que foram despedidos e que poderiam ainda estar ajudando-os a crescer, sem sentir a consciência pesada? Eu acho que Empresários e Governo, com suas “análises”, estão acabando com a Instituição Família e, conseqüentemente, com o futuro do Brasil.